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O movimento constante: entregar justiça mais rápido sem abrir mão da qualidade e da capacidade de inovar no dia a dia

Atualizado: 12 de ago.

Em julho de 2026 chegaram 374 processos ao gabinete: o maior volume de toda a série acompanhada por nós. E, ainda assim, estamos finalizando essa semana sem estoque na 5ª Câmara de Direito Privado.


Julho não foi um mês qualquer

Nos últimos seis meses, a distribuição de todos os meses ficou acima da média do período. A média mensal de distribuição entre fevereiro a julho de 2026 foi de 341 processos. Nos meses cheios de 2025 acompanhados pelo painel, de agosto a dezembro, essa média era de 307. São cerca de 34 processos a mais por mês, mais da metade de um mês de trabalho extra distribuído ao longo do semestre.

E julho fechou em 374: ou seja, 85 processos acima da média da série, 29% a mais. Foi o topo de uma escalada que já vinha acontecendo há meses. A carga não aumentou de repente, ela subiu de patamar. E, ainda assim, cá estamos finalizando a semana sem estoque de conclusão na 5ª Câmara de Direito Privado.

Painel (PJE) da 5ª Câmara de Direito Privado em 07/08/2026
Painel (PJE) da 5ª Câmara de Direito Privado em 07/08/2026

“Sem estoque” não é “sem processo”

Vale explicar, porque a expressão engana quem não vive o dia a dia de um gabinete judicial. Estoque é o que sobra. É o processo que chegou, foi distribuído e ficou parado, esperando a vez numa fila que enche mais rápido do que anda. Estoque de conclusão é acúmulo: trabalho de ontem que ainda não foi feito e que vai disputar espaço com o trabalho de hoje. Estar sem estoque, portanto, não significa que não há processo no gabinete. Significa que o que chega é trabalhado dentro do fluxo, e não empurrado para uma pilha. O processo que entrou esta semana está sendo analisado esta semana. É não ter um passado represado competindo com o presente.

É uma diferença enorme para quem espera pelo desfecho do seu processo do lado de fora. Em um gabinete com estoque, o tempo do seu processo depende do tamanho da fila que se formou antes de você chegar. Num gabinete sem estoque, depende só da complexidade do seu caso, que é como deveria ser.

Um resultado como esse nunca se sustenta por um motivo só. Ele depende de vários fatores agindo ao mesmo tempo: o volume que chega, a complexidade das matérias, o tamanho e a experiência da equipe, as ferramentas disponíveis, o momento do calendário forense e o que está acontecendo nas outras frentes. Basta um desses elementos mudar para que o resultado mude junto e é por isso que ele precisa ser olhado inteiro, e aqui fazemos isso.

Constância não se conquista de uma vez. Se conquista uma frente de cada vez.


Existe, entretanto, um efeito colateral pouco comentado em construir uma reputação: ela vira expectativa. Quando um gabinete passa a ser conhecido por estar "zerado" ou "não ter estoque", ninguém mais pergunta "como". Perguntam “e aí, continua sem estoque?” Como se fosse um estado natural, uma característica, quase um traço de personalidade.

Não é. Eu digo, inclusive em tom de elogio que é decisão de equipe, e ela é refeita toda semana. Num mês em que chegaram 374 processos, alguém precisou decidir, individual e coletivamente, não empurrar a conta para o mês seguinte. Não foi um sistema que decidiu isso, nem uma ferramenta (seja um painel de B.I ou uma IA): foram pessoas com nome e cpf, que escolheram fechar o que estava aberto sabendo que na segunda-feira chegaria mais. Decisão é algo que as pessoasm tomam, e podem deixar de tomar, portanto, a constância realmente é um desafio.

E a régua sobe por um segundo motivo: não é a única coisa que este gabinete faz.

Os assessores que trabalham conosco não são assessores comuns, e isso não é demérito em relação a outros assessores, que fique claro; é uma constatação do perfil que prezamos na assessoria. Além de produzirem suas minutas, eles participam de alinhamentos, têm como rotina participar de capacitações e eventos de forma contínua, trazer e formular estratégias, necessidades e problemas internos para serem resolvidos em conjunto, incluindo os que não aparecem em painel nenhum: a ferramenta que não funciona ou que poderia ser melhor, o fluxo que emperrou, a pessoa que saiu, o combinado que precisa ser refeito. Nem sempre são eles que materializam a solução ou fazem a ponte com o setor responsável, essa parte costuma ficar com a assessoria de inovação do gabinete e a gestora de gabinete, mas o problema chega à mesa porque alguém do jurídico se dispôs a enxergá-lo e a falar sobre ele.

Além disso, compartilham o que aprenderam com quem quer aplicar em outro lugar e respondem a quem pergunta sobre essa nossa forma de operar (Operação GRIDE).

Fazer todas essas coisas ao mesmo tempo é um desafio real, mas necessário. Haverão períodos que vão exigir um esforço maior da equipe, e isso é perfeitamente natural. Em contrapartida, nosso ambiente nos permite flexibilidade, bem-estar, e alocação desses esforços sempre com bom senso e entendendo as necessidades e momentos da equipe.

O que sustenta esse novo modus operandi não é heroísmo. É escolher, todo dia, não usar frases como "não temos tempo" como desculpa para as outras atividades além das minutas.

Porque inovar não é um projeto à parte, com data de início e fim, que acontece quando sobra tempo ou mesmo em um projeto enorme. É uma capacidade que se exerce no dia a dia, ou não se exerce. Ela mora no processo que você está lendo agora e na pergunta que você faz sobre ele ou sobre o fluxo: dá para fazer isso melhor da próxima vez?

O aumento não é surpresa. É tendência.

E a tendência claro, é ficar mais difícil, não mais fácil. Do lado de fora do tribunal, a inteligência artificial já reduziu drasticamente o custo de produzir uma peça. Petição inicial, recurso, embargos, o que antes levava horas hoje leva minutos. Quando o custo de produzir cai, o volume sobe. Não é uma previsão ousada; é aritmética.

Então a pergunta que temos que fazer não é “como aguentamos julho?”. É “como vamos aguentar os próximos cinco anos de julho?”. Correr mais, quando é necessário, faz parte, e vai continuar fazendo. Só que velocidade, sozinha, não responde a um aumento estrutural: é preciso estratégia. Porque o que escala de verdade é outra coisa: olhar e mentalidade.

Primeiro, ler painéis de B.I como diagnóstico, prognóstico e com capacidade preditiva, nunca como placar

Quem lê o painel de B.I só como placar, vê 374 processos e pode ficar levemente desesperado. Mas o jurídico que lê o painel como diagnóstico, se faz outras perguntas. O que aumentou exatamente? Que matéria puxou esse número? Isso é uma leva pontual ou um tema novo que veio para ficar? Se veio para ficar, o que eu preciso estudar agora, em agosto, para não estar despreparado em outubro?

Essa é a diferença entre reagir e antecipar. E antecipar não é dom, é hábito. É olhar para o número não como resultado do mês que passou, mas como aviso do mês que vem.

Cenário previsto é cenário administrável. Cenário ignorado vira estoque.

É preciso ter noção de que há uma parte do trabalho invisível, mas necessária

Junto com o aumento, cada vez mais chegarão aos autos alguns problemas que não existiam há cinco anos atrás, e que só o olhar humano treinado consegue pegar. Esses são apenas um dos motivos pelas quais estratégias de automação para gerar decisões são temerárias como solução (para além da proibição da RES. 615/CNJ).

  1. Cadeia inteira do início do processo automatizada. Captação de clientes em massa, por anúncio segmentado em redes sociais e formulários online; que já desencadeia a elaboração em série das peças por IA, trocando poucas variáveis; e peticionamento por robôs, protocolando em volume e em horários que nenhuma equipe humana sustentaria. Cada elo, isolado, é legítimo, tecnologia a serviço do acesso à justiça é conquista, não ameaça. O problema é quando os três funcionam encadeados sem nenhum ponto de conferência humana no meio: o que chega ao tribunal deixa de ser demanda e vira caos.

  2. Aceitação de peças escritas por IA sobre matéria que quem fez não domina. Elas existem, e elas chegarão cada vez mais. A estrutura é impecável, a linguagem é confiante, a formatação é bonita e o argumento não se sustenta, o precedente citado não diz aquilo, ou simplesmente não existe. Uma peça que parece certa é muito mais perigosa do que uma peça que parece errada.


  3. E o que é francamente inadmissível: trechos inseridos numa peça não para serem lidos pelo julgador, mas para tentar influenciar um sistema automatizado que possa processar aquele documento, o que se convencionou chamar de prompt injection. Isso não é criatividade processual. É tentativa de manipular o julgamento por uma porta que não deveria sequer estar cogitada.

Repare no que isso significa para nós:

A conferência humana não pode nunca desaparecer, ela precisa existir, e existir com mais rigor. Quanto mais IA circula do lado de fora, mais valioso fica o conhecimento jurídico do lado de dentro, porque ele passa a ser o único filtro confiável entre um texto plausível e um texto correto. Só quem domina a matéria percebe que a tese está torta. Só quem já leu o precedente percebe que a ementa foi torcida. Nenhuma ferramenta substitui isso; na verdade, a ferramenta aumenta a necessidade disso. E é justamente aqui que costuma aparecer a tentação mais perigosa de todas: a de responder à automação de fora, automatizando a decisão dentro dos gabinetes. Seria temerário. E não apenas porque é vedado, a Resolução CNJ nº 615/2025 exige supervisão humana efetiva, determina que nenhum sistema de IA pode restringir ou substituir a autoridade final do magistrado, e classifica como de alto risco exatamente as aplicações que encostam na valoração de provas e na interpretação normativa. É temerário por uma razão que vem antes da norma: manipulação só funciona quando existe algo automático para manipular.

Um trecho embutido numa peça para influenciar um sistema não tem poder nenhum sobre um julgador que lê. Ele só tem poder sobre um fluxo que não lê. A decisão humana não é o gargalo do processo, é a garantia dele. Enquanto houver alguém que responde pelo que assina, a porta dos fundos continua trancada. Automatizar o que é repetitivo, sim. Ganhar tempo na organização, na pesquisa, na triagem, na elaboração da minuta inicial e na formatação, sim. Automatizar o juízo, não. A diferença entre as duas coisas não é técnica, é de responsabilidade. Só que reconhecer o que não deveria estar ali é apenas a defesa. Existe um desafio específico, e ele é estratégico: construir diálogos frequentes com quem produz a demanda: a advocacia, as entidades de classe, a primeira instância, os grandes litigantes.

E olha aí: mais uma possível atividade extra à produção de minutas. Mas repare, de novo, como ela é necessária.E para quê? Para combinar novos critérios e diretrizes, para demonstrar aos demandantes onde a automação sem conferência gera prejuízo e retrabalho para todo mundo, inclusive para quem a usou e para as partes. Antes de ser um problema técnico, isso é um problema de diálogo. E este vai depender exclusivamente da vontade e da proatividade de quem atua nos processos todos os dias. Um problema resolvido na origem custa uma fração do que custa filtrado no fim. E evita o pior dos cenários: a desconfiança total das pessoas no Poder Judiciário.

É preciso ter a consciência coletiva de que a tecnologia, tanto para demandantes quanto para julgadores, não veio para pensar por nós. Veio para nos devolver a coisa mais escassa que existe num gabinete: tempo para pensar no caso difícil, e para reconhecer, o que não pode passar (como incongruências e manipulações).

Do outro lado do número tem alguém esperando

E aqui está a parte que nenhum painel de B.I mostra. Pense na última vez que você leitor precisou de um atendimento médico. Não o exame em si, o atendimento. Pense na diferença entre o profissional que cumpriu o protocolo dentro do horário e o profissional que olhou para você e suas queixas antes de olhar para a prancheta, e se necessário fosse, utilizaria de qualquer tempo daquele dia para garantir que nenhum mal lhe acometesse. Bom, tecnicamente, os dois entregaram. Humanamente, só um resolveu.

É exatamente essa a diferença de que estamos falando. Cada um daqueles 374 processos de julho é um conflito que já cansou alguém. Alguém que espera há tempo demais, que já explicou a própria história várias vezes, e que não faz a menor ideia do que significa “concluso”. Para essa pessoa, a postergação, a não priorização do coletivo em detrimento do particular tem efeito, tal qual uma decisão veloz e sem qualidade (decisão ruim que chegou mais cedo). Rapidez sem cuidado não é eficiência. É pressa. E não usar e otimizar todo o nosso tempo disponível no trabalho, é postergar a justiça.

Fazer os processos que foram distribuídos é ponto de partida, não a linha de chegada.


O que faz o nosso Gabinete ser o que é são as pessoas que, tendo terminado o próprio lote de processos, pegam mais sem ninguém mandar. Que ajudam o colega que ficou com a matéria mais difícil ou fácil mas que está passando por algo pessoal. Que, tendo tempo disponível, procuram analisar seus próprios passos para identificar melhorias em vez de ficar esperando o próximo processo cair. Que percebem uma matéria se repetindo e avisam antes de virar pilha. Que estudam o tema novo enquanto ele ainda é pequeno. Que leem uma peça, sentem que tem alguma coisa estranha ali, e levantam a mão em vez de seguir adiante e, que constroem o conhecimento coletivo interno para otimizar ou evitar o retrabalho de todos.

E aqui vale desfazer um engano e ilusão que se espalhou rápido e é aderido por comodidade em outros lugares. Pessoas replicam que a IA chegou para reduzir jornada de trabalho, para fazer todo mundo trabalhar menos. Essa narrativa não é apenas equivocada, ela coloca todas as pessoas que atuam no Poder judiciário, em uma atividade extremamente nobre e delicada, no mesmo balaio que as demais profissões que não possuem nenhum tipo de risco ou impacto muito grande na vida das pessoas. Na verdade, a IA chegou para nos ajudar a fazer o melhor proveito possível do tempo que já temos disponível para o trabalho. Se em determinado momento não há processo para analisar e isso acontece, esse tempo não evapora. Ele vira estudo. Vira colaboração interna. Vira uma melhoria de fluxo, uma ideia testada, um problema resolvido antes de crescer.

Porque a função do Poder judiciário não é apenas dar vazão ao processo. É garantir o ambiente e todos os meios necessários para que a verdadeira justiça seja entregue a quem precisa e da melhor forma possível. O processo é um dos caminhos, mas a nossa função é social.

Proatividade, aqui, não é sinônimo de trabalhar mais. É trabalhar com intenção.

Se é possível manter uma Câmara sem estoque enquanto o volume só sobe e, ao mesmo tempo, inovar, colaborar com a instituição e resolver o que trava aqui dentro, é porque isso não depende de sorte, nem de tamanho de equipe, nem de matéria. Depende de mentalidade. E mentalidade é a única coisa que qualquer gabinete, em qualquer tribunal do país, pode começar a mudar amanhã de manhã.

O movimento é constante porque a demanda é constante. O "como" e a "qualidade" é que precisará ser escolhida, todo dia, por cada um de nós. #TeamSaboia | a equipe que transforma a visão em realidade

Desembargador Luiz Octávio Oliveira Saboia Ribeiro; Assessores Jurídicos, estagiários e voluntários: Loiva Elinir Bischoff, Luiz Otavio Marques de Souza, Karina Oliveira Miranda Marques, Caio Augustus Vaz de Castro, Thamires Silva Rondon, Vanessa Klaus Saragiotto, Lidiane Memoria Campos Rodrigues, Milena Tiemi Iwashita Salgueiro, Anna Flávia de Moraes Cruz; Gabriel Vinicius Bulhões. Gestora de Gabinete Hellen Alessandra Graciosa Antunes de Matos; e Assessora de Inovação Eduarda Perdigão Coura.



 
 
 

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© 2024 por Luiz Octávio O. Saboia. 

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